Piscinas Negras


















































Um silencioso mergulho em busca do ser abissal. Assim pode ser descrito o trabalho da artista plástica e arquiteta Karen Axelrud. Uma aquosa escuridão recobre as suas telas, deixando entrever aos poucos, texturas, superfícies, ranhuras. Fendas talvez(?) por onde transitam seres secretos.Em seu inquieto universo, Karen envolve o espectador nesta atmosfera (ou seria uma anti-atmosfera já que submersa?) tanto íntima quanto desconhecida. Suas nuances, mais do que camadas de tinta, traços de pincel, gestual de braço, são interstícios que se revelam, de um inconsciente no qual habitamos todos e onde ela acende aqui e lá sutis lanternas, presas a fios quase imperceptíveis.
Varias são as analises possíveis à produção artística.Numa interpretação puramente psicológica, a busca deste interior oculto, silencioso, a busca deste útero original do qual não nos lembramos mais, mas que permanece guardado dentro de nos, é evidente.
Numa visão mais formal, nos deparamos com a precisão arquitetônica nas linhas verticais e horizontais. Mas a que servirão estas linhas tão nítidas que se entrecruzam senão a uma tentativa de conter, de aprisionar o que parece querer transbordar do interior da tela? Pontos de sutura, talvez, querendo evitar uma hemorragia interna. Ou ainda, um pouco menos orgânico, um arcabouço, um alicerce no qual se apoia a estrutura maleável. Dai a permeabilidade de suas sobreposições. Linhas, talvez sejam a negação a este ser medusal que teima em emergir. Se ousarmos ir um pouco mais além, podemos nos perguntar se sao mesmo as linhas que cobrem a superfície, ou justamente o contrário, trata-se de sulcos, fendas submersas neste universo aquoso? Em todo o caso, é a oposição das duas estruturas, uma rígida e geométrica, outra liquefeita e expansiva que formam o equilíbrio/desequilíbrio da sua criação. Linhas que salvam ou que aprisionam, plasma que se expande ou que asfixia?
Se as referencias da artista se remetem a Rothko ou Mondrian, não é apenas no plano formal que se pode percebê-lo. A sóbria gama de cores, a repetição exaustiva dos gestos, a insistente sobreposição são apenas um veículo através do qual a artista deixa transparecer sua trajetória intima, mística talvez, irrevelada.
Não ha calma nestas superfícies opacas,opacos espelhos, mas uma ansiosa apnéia onde um mundo desconhecido se oferece.
Ainda, o ritmo assimétrico, o trabalhado-retrabalhado, a construção e destruição continua, o cobrir e descobrir, revelam uma intima esperança, um pulsar vital.
Suas telas não são janelas onde se possa ver através. São antes piscinas. Negras piscinas que nos convidam ao salto.
Themis Cheinquer
Paris 2007

DARK POOLS

A silent jump into the abyssal creature. That's how we can describe the work by artist and architect Karen Axelrud. A liquid darkness covers her canvases, letting appear, now and than, textures, surfaces, scratches. Cracks maybe? Through which secret entities pass by. In her restless universe, Karen involves the spectator in this atmosphere (or should we say anti-atmosphere since it is submerged?) as intimate as unknown. Her colours, more than painting layers , brush strokes, arm gesture, are revealed interstices from a subconscious where we all live and where she lightens here and there subtiles lamps, hanging to invisible lines.
Many are the possible analysis to an artistic process. In a strictly psychological interpretation, this search of a hidden silent interior, the search of this original uterus that we don't remember anymore but that remains kept inside of us is evident. In a more formal vision, we find an architectural precision throw this vertical and horizontal lines.
But what mean is there in this very precise crossing lines if not to try to content, to imprison what seems eager to overflow? Stitching points, maybe, trying to stop an internal bleeding. Or, moreover, less organic, a skeleton over which the melting structure leans on
This gives the permeability to its layers. Lines, maybe a deny to this anemone-being that insists to emerge. If we push even further we should ask if it is really the lines that cover the surface or, in the contrary, they're actually holes submerged in this liquid universe? Anyway, it is the opposition of both structures, one rigid, geometric, the other one liquid and expanding, which creates the balance/non-balance of her work. Lines that rescue or lines that imprison plasma which are expanding or plasma that stroke? If the artist's references lead to Rothko or Mondrian, it is not only in the formal structure that we can realise it. The sober colour choice, the exhausting repetitive movement, the insisting over layers are just a way by which the artist let shows an intimate trajectory, mystic maybe, non-revealed.
There is no calm in these blind surfaces, blind mirrors, but an anxious lack of air where an unknown, bewildering world appears. Still, the irregular rhythm, the worked-re-worked, the continuous construction-destruction, the cover-uncover, reveal an intimate hope, a vital pulse.
Karen's canvases are not windows throw which we can see. They're pools. Dark pools inviting us to dive.



O universo criativo contemporâneo trás em sua essência a fragmentação, isso graças a um longo caminho de ‘des-construções’ artísticas. A produção pictórica de Karen Axelrud concentra-se na relação binária que estrutura esse processo; sua obra emerge dessa relação.
Em seu processo, a artista entrega-se à deriva em sua produção, os caminhos que percorre, necessariamente não possuem um fim especifico, essa trajetória é parte de sua construção, a complexidade é a matéria prima de seu trabalho, seu processo ocorre entre o pensar e o fazer, e na relação existente entre eles.
A artista explora a persistência, a repetição, a continuidade, a partir de referências, experiências vividas e na relação que existe entre elas. Sua obra parte da fragmentação revelando significados ocultos que possibilitam novas leituras.
Cubos pretos, cuja cor funciona como um pólo de tensão. Contenção que retém a intensidade da luz. Substrato do interior de seu trabalho, espaço para onde nos convida a penetrar e lá coexistir com seu universo pictórico.
Em seus últimos trabalhos a artista utiliza-se de fragmentos. Elementos singulares que lhe permitem avançar em seu projeto artístico e que trazem em seu interior forte carga de significados e sentidos. Suas obras exibem surpreendente riqueza fundada em sutis articulações. Um sistema modular que busca exigir do espectador mais do que seus olhos possam perceber. Nele o espectador é lançado a um mundo imaginário como co-participante, como objeto desse sistema onde o prazer estético se dá através das possibilidades desses diálogos.

Carlos Henrique Gutierrez
Porto Alegre 2007

The contemporary creative universe brings in its essence the fragmentation, thanks to a long path of artistic “de-construction”. Karen Axelrud’s production concentrates in the relation that structures this process. Her art emerges from this relation. In her work, the artist goes with the flow of her production, the path she chooses doensn’t have a specific end. This trajectory is part of her construction, the complexity is the raw material of her work. Her process happens between thinking and doing and in its relation.
The artist explores persisitence, repetition, continuity, based on references she had experienced and lived and in the relation of this with her persona. Her work begins in fragmentation revealing hidden explanations that enable new understandings.
Black cubes, colored in a way to be poles of tension. Like black holes that keep the intensity of light within. Is a trip inside her work that invites us to into a space that we coexist in her universe.
In her latter works the artist employs fragments. Singular elements that allow moving forward her artistic project and bring a heavy load of meanings and feelings. Her work shows a surprising richness based on tenuous articulations. A modular system that forces the viewer to see more than meets the eye. In it, the spectator is thrown into an imaginary world as a participant, like an object of this system where the aesthethic pleasure is enabled by the possibility of this dialogues.