Percurso de uma linha

Linha:
“Curso ou direção seguidos por qualquer coisa em movimento.
Traço visível ou imaginário que separa duas coisas contíguas.
Percurso, via, rota. Direção contínua em determinado sentido”














 




























Queria dividir a casa da Rua São Francisco ao meio. Uma casa desocupada, sem uso, irregular no contexto formal urbano, disponível, livre para qualquer ação. A linha, linguagem permanente em meu fazer artístico, foi a lógica imediata que escolhi, como solução simbólica a intervenção. Esta seria minha resposta, ao mesmo tempo um ato de partilha e uma oportunidade de experimentar a expansão da pintura em campo tridimensional.
Na altura dos meus olhos, iniciou fina, cuidadosa. Passou por portas, janelas, tomadas e acabou se modificando, entre conversas com cada colega de trabalho que encontrei no caminho. Entrou em novos planos desenhados, desvirtuando o real. Subiu, sumiu. Retornou em expansão, contaminou o espaço. Atravessou paredes, fez caminhos imaginários. Tornou-se um traçado presente sem, no entanto, estar sempre à vista.
Fui levada pelo prazer da experiência, deixando o fazer tomar conta sobre o planejamento, sobrepondo a tarefa racional, deixando a execução em estado de deriva. Permiti modificações. Mais do que traçar uma linha horizontal contínua no perímetro de toda a casa, me deixei encontrar em bifurcações, situações que modificaram esta linha ao longo do tempo que permanecemos em grupo, numa espécie de reconstrução desta casa sem identidade, condenada à demolição.
Foi uma oportunidade de comparar o desejo de realizar uma pintura em um campo ampliado e sua efetiva execução. Longe da tela lisa e preparada, estava diante de novos problemas de pintura. Pedra, reboco, lambri de madeira - superfícies rugosas. Meu pincel ficou sujo de teias de aranha, traças e cupins. Situações adversas, entre a escassez de água e luz, o tempo reduzido para as atividades entre o pensar e o fazer, e ainda, o cansaço físico. Bem diferente do conforto do atelier, dos materiais à mão, das facilidades e disponibilidades que usualmente nos cercamos.
Mais uma vez repeti o gesto da linha e mais uma vez obtive um resultado diferente. Esta foi uma linha de horizonte, de fluxo, ação, movimento. Gerei um encaminhamento, um percurso por onde pode se descobrir um pouco de cada experiência realizada nesta casa. Significados artísticos correm em várias direções e desta vez fico com o caráter relacional.
Ao invés de ruptura, se sucedeu o contrário. No jogo simbólico de cortar, terminei numa tarefa de união. Estive menos interessada em meu trabalho exclusivamente, e sim no resultado conjunto. Quanto mais o tempo passava, o envolvimento aumentava. Mais tempo tivéssemos, mais esta linha estaria conectada nas intervenções, mais conversa entre os trabalhos estaria acontecendo, mais esta seria uma atividade una. A linha em seu papel de amarra, buscou a liga de todos nossos pontos.
Pontos de costura de um grupo que fez desta casa seu campo de experiências – de um laboratório á uma instalação. A casa da Rua São Francisco, tomada por nossas ações foi transfigurada em local de exposição. Ali estão resíduos de um exercício de liberdade artística e um convite à reflexão.


Laboratório de Ações Urbanas - Maio 2011




Journey of a line

Line
 “Course or direction followed by something moving.

Imaginary or visible trace that separates two contiguous things.Route, track. Continuous direction in a certain way
At the height of my eyes, started fine, careful. Outlined doors, overpassed windows, plugs, and ended up changing, between a chat with each fellow I found on my way, also working in the house.
Once more I repeated the gesture of the line and again I got a different result. This was a horizon line. It deals about flow, action, movement. I have gotten a direction, a path from which it is possible to discover a little of each experiment done in this house. Artistic meaning runs in various directions and this time I choose the relational character.
Instead of rupture, the opposite happened. In symbolic game of cutting, I ended in a union job. I was less interested in my work exclusively, but rather the result of the group together. The more time passed by, the involvement would increase. With more time, this line would connect more interventions. More discussion between the works would happen, and our activities would be even more united. The line in its role ties, sought to connect all our points.
I wanted to divide the house of San Francisco St. in the middle. An unoccupied house, unused, irregular in the urban formal context, available, was free to any action. I choose the line, a permanent language in my art making, for a symbolic intervention. This would be my answer, at the same time an act of partition and an opportunity to experience the expansion of the painting in a three-dimensional field of activity.

Entered into new plans drawn, distorting reality. Ascended and disappeared. Returned in expansion, contaminated the space. Went through walls, made imaginary paths. Became present without, however been sight.
I was taken for the pleasure of the experience, leaving the act of doing overpass the planning, overriding the rational task, leaving the execution in a state of drift. I permited modifications. Rather than continuing to draw a horizontal line at the perimeter of the entire house, I let me find bifurcations in situations that changed this line over time that we stand together, in a kind of reconstruction of this house without identity, condemned to demolition.
It was an opportunity to compare the desire of make a painting in an expanded field and its effective implementation. Away from the canvas, flat and prepared, I was faced to new problems of painting. Stone, plaster, wood paneling - rough surfaces. My brush was dirty with cobwebs, moths and termites. Adverse situations, including the scarcity of water and light, the reduced time for activities between thinking and making, and also the physical fatigue. Far from the studios comfort, the materials at hand, and availability of facilities that usually surround ourselves.
Stitches of a group that made this house a field of experience - a laboratory for a facility. The house at San Francisco  St., taken by our actions has been transfigured into local of exposition. These are residues of an exercise in artistic freedom. An invitation to reflection.